Estrangeira ( ou: Meu Lugar não é Aqui)

Eu descobri em mim mesmo desejos os quais nada nesta Terra pode satisfazer.
A única explicação lógica é que eu fui feito para outro mundo.
(C.S. Lewis)

A maior parte do tempo eu me sinto uma verdadeira estrangeira. Não é aquela síndrome de “floco de neve especial”. Seria mais fácil se fosse narcisismo. Acontece que desde pequena eu olho a minha volta e não me sinto parte da fotografia, como se eu sempre estivesse olhando numa perspectiva distante e impessoal. Eu observo as pessoas, o que vestem, como falam, o que acham divertido, os lugares que gostam de ir, os livros que preferem ler, as tendências que seguem, e sempre chego a conclusão de que não acompanho o ritmo da dança.

Mesmo sabendo que “cada pessoa é diferente”, percebo que todas as outras pessoas parecem muito confortáveis no papel social que executam, elas sempre sabem o que dizer e o que fazer na hora na certa, e tudo parece se encaixar direitinho no cenário. Quanto a mim, sou aquele personagem que está lá mas não se encaixa, e não importa o quanto eu tente participar ou quantas vezes eu rio de piadas que não fazem nenhum sentido, estou muito consciente da minha performance para ser espontânea.

Quantas vezes eu digo a mim mesma “nunca se sinta inadequada pelo que você é” mas sempre me sinto assim? Não se dê ao trabalho de contar. A frase “isso é muito inadequado” ecoa na minha frente com mais frequência que eu desejo admitir. Sinceramente, eu não faço questão de pertencer a algum lugar, já me acostumei com a vida de estrangeira. Só queria mesmo que meu sentimento de estrangeira não me abalasse a ponto de me sentir tão solitária vez por outra. Tento a todo custo aceitar que não fui agraciada com o sentimento de pertença, e de que sempre serei aquela peça do quebra-cabeça que nunca vai se encaixar completamente em lugar nenhum. Mas ainda é tão difícil olhar para as outras pessoas e não desejar, nem que seja por um momento, ser parte de alguma coisa verdadeira e significativa, como um grupo ou um clã.

Talvez você argumente que eu levo isso a serio demais e que eu devia simplesmente “me soltar”, que basta agir como se todo mundo gostasse de você, mantenha o sorriso no rosto e não tenha medo de falar com as pessoas. É o tipo de conselho que dou para quem é mais tímido que eu. Mas isso exige competir por atenção com pessoas mais experientes, compartilhar detalhes importantes que ninguém se importa de fato, e no final do dia só me sentirei cansada e exposta.

Já passei tempo demais reclamando a cidadania de um lugar a qual jamais vou pertencer. No fim das contas, meu lugar não é aqui. Não neste mundo, não neste plano material. Quem sabe o meu sentimento de estrangeirismo seja saudades da eternidade. Tenho saudade das coisas eternas, perfeitas e imutáveis, saudades do infinito. Saudades daquilo que ultrapassa minha noção de passado, presente e futuro. Um dia eu chegarei nesse lugar e saberei que estou em casa. Mas, por enquanto, preciso dedicar os meus dias a pavimentar o meu caminho de volta ao meu verdadeiro lar.

1 Comment

  1. Kaila Garcia

    novembro 15, 2017 at 23:21

    Me identifiquei tanto com seu texto, já fui mais assim, mas há momentos que não me sinto encaixada em lugar nenhum, é um sentimento tão estranho, né? ❤

    http://www.kailagarcia.com

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